Lembro-me de ir visitar duas das minhas amigas da faculdade, V. e I., na república onde moram. Era uma tarde quente de primavera, e estávamos conversando sobre irmos à praia, a uma cachoeira ou a um clube em algum momento. Enquanto conversávamos sobre assuntos leves de nossas vidas, I. partia sem que percebêssemos.
Eu e V. preparamos um pão em uma grande bacia (que mais me lembrava a caixa de areia de um gato). Usávamos farinha de mandioca para fazer o pão, o que não me gerava estranhamento. Nunca preparei a massa de um pão, mas, em meio à nossa leve conversa, instintivamente eu sabia o que deveria fazer.
A mistura era de água e farinha de mandioca. Eu misturava, mas deixava escapar parte da massa. Não me importava nem me afligia; apenas pegava a massa que escapava e, calmamente, colocava-a de volta na bacia. A massa ficava sovada de maneira impecável, e deixávamos juntos o pão crescer ao sol.
Eu conversava com algumas pessoas sobre a ditadura militar. Não me lembro do cenário nem de com quem estava conversando. De repente, passei por uma possessão espiritual. No caso, pelo espírito de Honestino Guimarães. Minha voz mudava e, tomado pelo espírito de Honestino, eu falava alguma coisa como: “Eu estava viajando do Rio de Janeiro para São Paulo quando fui sequestrado, e esse foi o momento que levou ao meu desaparecimento.”