O autógrafo

Eu estava em um prédio cuja arquitetura se assemelhava à do prédio da UnB. Só fui a Brasília muito novo e nunca conheci a universidade, então a descrição física veio de fotos que vi na internet, em um dia em que passei algum tempo pesquisando sobre o espaço.
Um autor, que já está morto, estava distribuindo autógrafos no local, e eu tentava conseguir uma dedicatória em um de seus livros meio surrados da minha coleção. Toda vez que eu me aproximava, no entanto, ele se movia para longe de mim, de forma meio espectral (teletransportando-se ou se esquivando de mim com algum tipo de deslocamento mágico).
Eu continuamente tentava ir atrás do autor, me colocando em situações extremamente vergonhosas, conversando com pessoas mesquinhas e tentando alcançá-lo a todo custo. Eventualmente, um funcionário da limpeza do local notou minha angústia e decidiu me ajudar. Disse que poderia tentar me colocar frente a frente com o autor.
Eu aceitei a ajuda, mas foi infrutífera: não conseguimos, mesmo em conjunto. O que se seguiu foi um diálogo extenso com esse sujeito da limpeza, que conversou comigo sobre a humilhação do trabalho, a má remuneração e a falta de oportunidades para mudar de vida. Eu me comovi profundamente com essa conversa e decidi esquecer o meu motivo inicial. Saí do prédio e me ofereci para pagar um almoço para o sujeito da limpeza, que, até o final do sonho, não revelou o seu nome.
No restaurante, enquanto comíamos, o autor sentou-se à mesa ao lado, e eu consegui o autógrafo.
Vinícius Andrade