O ator
Sonhei que me tornei amigo de Flávio Bolsonaro.
No sonho, nós nos conhecíamos em um evento festivo da faculdade em que leciono. Em determinado momento, ao fugir da multidão e me dirigir à sala dos professores, deparei-me com Flávio, que também estava se escondendo dos demais. Ele começou a conversar comigo sobre comidas favoritas, esportes, lazer, viagens... Assuntos triviais.
Após esse episódio, passou a me procurar esporadicamente para jogarmos cartas e assistirmos a programas de televisão, como reality shows. Em momento algum, porém, mencionava seu duplo: sua versão conhecida por todos, isto é, a figura pública e política, especialmente como candidato à Presidência.
Ele sabia do meu posicionamento político, avesso ao dele. Flávio dizia que não era para levar a sério seus posicionamentos e suas falas em público, pois, para ele, tudo aquilo não passava de um serviço. Era como um ator contratado para desempenhar o papel de alguém cujos comportamentos não correspondiam aos seus comportamentos reais.
Ao mesmo tempo, Flávio também não levava a sério as minhas convicções e inclinações políticas. Para ele, era possível separar a política da vida pessoal, sendo uma bobagem misturar as duas coisas. Trabalho é trabalho. Não importavam, para ele, as consequências de suas ações para a população. Também não parecia se importar com os próprios familiares, preocupando-se apenas em conservar seu poder e sua visibilidade, de modo a manter uma vida financeira de alto padrão.
Não me recordo do desfecho, se é que houve algum, do sonho. No entanto, uma coisa que me chamou particularmente a atenção foi o fato de eu não tê-lo julgado ou criticado em momento algum, tampouco ter interrompido aquela relação. Não porque tivesse sentido empatia ou criado, de fato, algum vínculo com ele. No sonho, parecia que eu também estava atuando, da mesma forma que ele fazia diante do público.Parecia que eu estava motivado pela curiosidade de compreender aquela persona desprezível e excêntrica que se encontrava diante de mim.
Victor Mota