Tatuagem
Atualizado: 20 de set.
Essa noite sonhei que estava em São Paulo, capital. Saí de um lugar que parecia um hotel rumo a um estúdio de tatuagem, com o intuito de fazer no meu peito o desenho de um polvo.
Tomei um ônibus e, ao chegar ao estúdio, decorado ao estilo deste tipo de estabelecimento comercial (muitos quadros pendurados, cartazes coloridos, sofás estilosos e caros, uma TV que passava um programa da MTV), o dono do local me mostrou alguns trabalhos do artista tatuador (pelo zunido, um barulho de motor de dentista misturado com britadeira, ele estava trabalhando dentro de uma outra sala).
O dono da loja me mostrou um desenho de um polvo vermelho, que parecia mais uma bola ovalada, sem os tentáculos. O valor do trabalho era 200 reais à vista, com direito a um ingresso para uma badalada festa que aconteceria logo mais tarde, naquele mesmo dia. Já o preço a prazo: "entre 300 a 700 reais". Aguardando a minha vez, lembrei que tinha quase exatamente o primeiro valor em minha conta.
Nesse momento, a coisa começou a ficar estranha. Ao tentar acessar o app do banco pelo celular, o leitor digital dava "falha na leitura biométrica". Tentei várias vezes e sempre o erro. Comecei a entrar em desespero, pois minha vez estava chegando para a pontada no peito ainda virgem. Em meio a essa tentativa, escutei vozes de três mulheres que conversavam em um sofá atrás de mim, cerca de dois metros de distância. Não quis me virar para ver (apesar de uma das vozes ser de uma conhecida).
Pelejando com o app do celular, vi que, na minha coxa direita (que estava levemente dobrada e apoiada pelo tornozelo esquerdo sobre o joelho esquerdo), na parte interna, havia uma sobra de uma tatuagem marrom, que parecia mais uma marca de barro que um desenho. Notei também que eu estava mais gordo. Olhando de relance para o meu ombro direito, havia uma outra tatuagem, também um borrão, desta vez mais puxado para o azul escuro. Meu braço também estava mais gordo e forte.
Como não conseguia ver o extrato no app do banco, resolvi procurar um banco físico próximo para sacar o dinheiro. Do lado de fora, as coisas aconteceram rápido: em um frame, eu estava na calçada; no outro, apontei em rumo a uma rua muito reta e longa, levemente inclinada para baixo, onde me pus a caminhar em direção a lugar nenhum.
Esta rua era de mão dupla para carros, e eu descia pelo passeio do lado direito. Do outro lado não havia onde pedestres caminhar, somente um barranco que subia com muitas árvores. Do meu lado direito, da calçada, a dois metros de altura para baixo do nível onde eu pisava, descia um córrego limpo e bem raso, repleto de seixos rolados (pedras de rio muito redondas e polidas pelo secular atrito com a água). Um segundo se passou, e já tinha caminhado cerca de cem metros ao longo do trajeto e, de súbito, achei que deveria voltar rápido para o estúdio, pois percebi uma estranha movimentação de pessoas ao meu redor.
De repente, por cima da rua passava uma ponte e, quando dei por mim, estava debaixo de um viaduto cercado de pessoas que passavam por vulnerabilidade química e social. Entrei em estado de alerta total e achei melhor não retornar pelo mesmo caminho.
Desci o patamar e comecei a correr pelo riacho, pulando sobre as pedras afloradas sobre a água. Dava pulos de 4 a 5 metros de distância, como um animal silvestre correndo de felinos na savana africana. Passei ao lado de um morador de rua que urinava em pé em uma árvore marginal do córrego, disse alguma coisa a ele, mas não me lembro (se tivesse registrado o sonho pela manhã, talvez lembraria). Cá de baixo podia ver os carros que passavam muito rápido e buzinando na rua, na altura dos meus olhos.
Cheguei ao estúdio de tatuagem, e a porta da frente estava trancada. Dei uma volta e encontrei outra porta. Entrei. Os móveis de antes não estavam mais lá. O cômodo estava completamente vazio. Escutei vozes vindas de um subsolo, onde avistei uma escada estreita, em espiral, que levava a elas. Ao chegar no fim da escada, um brutamontes branco, careca, que, apesar da falta dos dentes frontais, não parecia ter mais de 40 anos, me barrou bem na porta, apertando com uma força tremenda o encontro entre meu pescoço e o peito, obstruindo minha respiração. "Não vê que a loja está fechada, seu otário?" (gritou comigo com o punho direito cerrado, pronto para me dar uma porrada na cara). "Eu tinha horário marcado para uma tatuagem!" (respondi gaguejando). "Não quero saber, agora vou ter que te matar..." (falou ele, mordendo os lábios com muito ódio no olhar)...
Foi quando acordei, deitado de bruços e percebendo que a posição da ponta do travesseiro fazia um tipo de calombo e apertava meu pescoço na mesma posição da mão de meu antagonista no sonho.
Thiago Caldeira